SOMENTE PARA SER FELIZ

quarta-feira, julho 21, 2010

Nao julgarás a moral alheia




Moral deveria ser uma palavra boa. Está ligada ao espírito ético, à boa conduta, ao comportamento civilizado. Mas a moral, por assim dizer, perdeu a moral com a galera. Por causa de seu derivativo 'moralista', a imagem de quem fala sobre moral é sempre associada a uma coisa retrógrada, má, julgadora.

Se 'moral' fosse uma pessoa, a figura caricata seria de uma mulher madura, enfezada, assexuada e cruel, como as personagens estereotipadas das diretoras malvadas das escolas fundamentais dos filmes.
No momento, a diretora cruel que representa a moral volta às notícias de primeira página para julgar e punir a todos, principalmente, as vítimas.
Eliza Samudio está desaparecida e tudo aponta para um assassinato, talvez mais um caso de violência passional que termina em crime contra uma mulher. Eliza, portanto, seria a vítima.

Ao mesmo tempo que os profissionais buscam provas, indícios e testemunhas para encontrar Eliza, uma onda de fotos, fatos, boatos e vídeos sobre a vida e conduta da jovem circula livremente pela rede.

Eu, que sou como todo mundo, também me envolvo com as coisas que vejo. Cada imagem, cada texto, vai gerando um novo sentimento em mim. A amiga, o bebê, o goleiro, a mulher do goleiro, as fotos de Eliza grávida, vão se somando numa gaveta do meu cérebro, onde acompanho e arquivo o caso que salta aos nossos olhos nas manchetes. A tatuagem ressaltada no círculo vermelho que mostra que aquele corpo numa pose sexual, o mesmo da gestante da outra foto, me faz sentir uma certa repulsa por quem fez a comparação. O vídeo sexy, o outro mais sensual e o link para um vídeo pornô, me dão uma dor muito grande na alma. Não tenho vontade de ver, nem clico no link. Sinto só uma vontade de chorar.

Porém, independentemente das reações que cada informação ou imagem me causem num primeiro momento, eu sou um ser humano que sente E pensa. E não importa o que Eliza tenha feito em sua vida, nada justificaria ser assassinada, caso isso tenha acontecido. Como disse o pai de Eliza, não interessa o que ela fazia. É preciso saber o que aconteceu com ela. E se aconteceu o pior, quem cometeu o crime.

Porque os crimes passionais existem, sim. A violência contra a mulher existe e muito. Existe também a prostituição, a pornografia, o mercado de filmes adultos. Existe a miséria, a ambição, o poder, o deslumbramento, a ilusão. Existem homens cruéis. Existem marias-chuteira. Existe inveja, raiva, crueldade, moralismo, crianças órfãs, pais que perdem seus filhos. E existe a hipocrisia.

Hipocrisia, palavra desconhecida em sua forma ortográfica tanto quanto em seu conteúdo etimológico.

Hipocrisia vem do grego (fui ver no Houaiss) hupokrisía e hupókrisis e quer dizer 'desempenhar um papel, representar, fingir, dissimular'. Fingir é não ser verdadeiro.

Em última instância, sempre que julgamos alguém por sua conduta de vida estamos sendo hipócritas. Porque se vasculharmos os arquivos da nossa própria vida, ou das pessoas do nosso círculo familiar, certamente vamos encontrar coisas que nos desabonariam perante a 'moral' pública. Coisas que não gostaríamos que fossem reveladas ao mundo sem o nosso consentimento. Coisas que ninguém deveria usar contra nós, se estivéssemos numa posição indefesa. Ou se não estivéssemos sequer vivos para exercermos nosso direito de resposta.

É humano sentir o impulso de julgar alguém, de reagir a uma imagem que foge ao nosso cotidiano.

Mas o digno é pegar o impulso, jogá-lo fora e lutar para que o criminoso seja encontrado e punido.

Porque culpar a vítima é ser cúmplice do criminoso.
Não, você não é culpado por ver arquivos na Internet.

A Internet tem que ser sempre livre.

Quem não pode ficar livre é o assassino.

Isso sim

seria totalmente imoral.



Rosana Hermann

domingo, abril 11, 2010

A omissão que mata - Ruth de Aquino



Quem mora lá no morro já vive pertinho do céu. A canção composta por Herivelto Martins em 1942, “Ave Maria no morro”, é um exemplo da relação romântica entre o Rio de Janeiro e a favela. Um amor com final trágico e previsível. Como todos vimos na semana passada, eram pobres e favelados as vítimas da tempestade no Estado. E quem matou essas famílias não foi a fúria das chuvas. Mas governos negligentes, paternalistas, demagogos e irresponsáveis.

O crime mais revoltante foi cometido pelo prefeito Jorge Roberto Silveira, de Niterói.“Eu sabia do lixão ali, mas nunca tinha havido nenhum incidente.” Foi a declaração inocente do prefeito do PDT. Ele comanda Niterói desde 1989, com alguns intervalos para um prefeito do PT. O Morro do Bumba abrigava uma comunidade inteira, com casas, igreja, pizzaria, bares e creche. Tudo sobre um lixão tóxico, desativado em 1986. A comunidade floresceu sob a vista complacente e amiga de Jorge Roberto. A Cedae colocou ali bica d’água. O então governador Brizola levou ao Bumba o programa “Uma luz na escuridão”. Anos depois, a comunidade ganhou quadra de esportes, creche. Brizola virou nome de rua no Bumba. Não dá para acreditar que alguém instruído resolva urbanizar uma área condenada.

O prefeito Jorge Roberto nunca parou para pensar que estava cavando a sepultura de 150 pessoas ou mais, segundo cálculos de moradores.

Por que o lixão desativado não foi cercado por ele? Não era um morro qualquer. Era um amontoado de matéria orgânica que apodrecia e soltava gás metano, um gás explosivo. Aquilo não era um solo. Era uma bomba-relógio. “Você sabe, num país como o nosso, é muito difícil impedir assentamentos irregulares ou remover moradores de áreas de risco”, disse Jorge Roberto. “Tentei o possível, tentei o máximo.” O máximo.

O Morro do Bumba, com sua lama negra de detritos que desceu de uma altura de 600 metros, é o maior retrato da demagogia que pune os pobres. É o resultado da ausência de uma política habitacional para famílias de baixa renda. É a improvisação do salve-se quem puder. É o retrato de gerações de políticos que jamais pensaram a longo prazo, no bem-estar da população e das cidades.

Mas não são apenas políticos. Muitas vezes, é a esquerda-caviar carioca. Ou os gringos de institutos internacionais que vêm fazer tour exótico e social nas favelas para depois tomar champanhe na piscina do Hotel Fasano, de frente para o mar de Ipanema.

Até os nomes das favelas são poéticos. “O que está acontecendo é resultado de anos de demagogia em relação à favela”, diz a antropóloga carioca Alba Zaluar. “É incrível que essas tragédias ocorram em lugares com nomes como Morro dos Prazeres ou Chácara do Céu. As favelas historicamente eram cenários de sambas lindos, espaços de poesia e criatividade. Com o tráfico de drogas, essa visão romântica foi abalada.”

Um barraco pode ser o único patrimônio de uma família. Mas é preciso que o poder público rompa a ideia de que essa afetividade é sinônimo de segurança, em vez de transformar a favela em seu curral eleitoral. “É a própria política que ajuda a construir a noção de que a casa é própria, mesmo que esteja no meio de um barranco que pode cair a qualquer momento”, diz Alba. “E toda a sociedade é conivente com essa ideia.”

Sonho de qualquer cidadão, a casa própria nasce muitas vezes do tijolo e do ferro doados por políticos – não importa sobre que terreno ou com que engenharia a obra será erguida. “São esses mesmos políticos que, tempos depois, buscarão apoio da Justiça ou organizarão manifestações populares para evitar a desapropriação e a remoção – auxiliados por ONGs e movimentos sociais”, diz Fernando Kerzman, presidente da Associação Brasileira de Geografia e Engenharia Ambiental (ABGE).

“É nesses momentos que a gente se orgulha de ser brasileiro”, disse o prefeito Jorge Roberto, diante da língua negra de lama e lixo apodrecido que soterrou seus eleitores. Não pude acreditar. Ele dizia, na televisão, que tudo estava “sob controle” e se confessava emocionado com a solidariedade do presidente Lula e dos bancos.

RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

quarta-feira, agosto 19, 2009

O DÍZIMO DO TRÁFICO - Diogo Mainardi - VEJA




O dízimo do tráfico
sábado, 15 de agosto de 2009 | 0:56
“Carlos Magno de Miranda era um dos líderes da Igreja Universal. Ele relatou os detalhes de sua ida a Medellín, para receber dinheiro dos narcotraficantes colombianos. Um mensageiro entregou-lhes 450 000 dólares. As mulheres dos pastores esconderam o dinheiro nas calcinhas”

O pastor Carlos Magno de Miranda, em 1991, acusou a Igreja Universal de ter comprado a Rede Record com dinheiro de narcotraficantes colombianos. Agora, com duas décadas de atraso, o episódio finalmente poderá ser esclarecido. Os mesmos promotores que, na semana passada, denunciaram criminalmente Edir Macedo e outros integrantes da Igreja Universal indagam também a suspeita de que a segunda parcela da compra da Rede Record possa ter sido saldada com recursos do Cartel de Cali. Carlos Magno de Miranda é uma das testemunhas arroladas pelo Ministério Público, e os promotores cogitam pedir a abertura de mais um processo contra os donos da Rede Record.

Carlos Magno de Miranda era um dos líderes da Igreja Universal. Em 1990, ele se desentendeu com Edir Macedo e passou a atacá-lo publicamente. Num dos documentos obtidos pelo Ministério Público, ele relatou os detalhes de sua ida a Medellín, para receber o dinheiro dos narcotraficantes colombianos. Ele teria viajado com os pastores Honorilton Gonçalves e Ricardo Cis, todos acompanhados de suas mulheres. Permaneceram dois dias na cidade. No primeiro dia, aguardaram no hotel. No segundo dia, um mensageiro entregou-lhes uma pasta contendo 450 000 dólares. As mulheres dos pastores esconderam o dinheiro nas calcinhas e, de madrugada, retornaram ao Rio de Janeiro num jato fretado. Segundo Carlos Magno de Miranda, os fatos teriam ocorrido entre 12 e 14 de dezembro de 1989. Os promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) analisaram os registros aeroportuários da Polícia Federal e – epa! – documentaram que, naqueles dias, os pastores da Igreja Universal realmente foram a Medellín, com escala em Manaus.

O Ministério Público, além disso, entrou em contato com autoridades americanas para poder interrogar o narcotraficante colombiano Víctor Patiño, que foi preso em 2002 e extraditado para os Estados Unidos. Seu nome foi associado ao da Igreja Universal em 2005, quando a polícia colombiana descobriu que uma de suas propriedades em Bogotá – uma cobertura de 600 metros quadrados – era ocupada por Maria Hernández Ospina, que alegou ser representante de Edir Macedo. Uma das dificuldades dos promotores do Gaeco é que Edir Macedo tem cidadania americana, dado confirmado oficialmente pelo consulado. O Ministério Público já encaminhou todos os documentos do processo contra Edir Macedo aos Estados Unidos, para que os americanos possam abrir um inquérito próprio.

A Igreja Universal, nos últimos dias, atrelou sua imagem à de Lula. É a mesma estratégia empregada por José Sarney. Um apoia o outro. Um defende o outro. Edir Macedo está com Lula e com Dilma Rousseff. Agora e em 2010. Se a Igreja Universal tem um Diploma do Dizimista, assinado pelo senhor Jesus Cristo, Dilma Rousseff tem um Diploma de Mestrado da Unicamp, supostamente assinado pelo senhor Espírito Santo. O senhor Edir Macedo e o senhor Lula se entendem. Eles sabem capitalizar a fé.

Por Diogo Mainardi


http://veja.abril.com.br/blog/mainardi/

sábado, dezembro 13, 2008





Quem matou João Roberto?


RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.brNão foi fatalidade o assassinato de João Roberto, de 3 anos, num domingo de julho, quase na esquina de casa, na Tijuca, Rio de Janeiro. Fatalidade é bala perdida, é estar no meio de um fogo cruzado. A mãe de João Roberto, a advogada Alessandra Soares, estacionou para evitar uma fatalidade. Deixou a polícia passar numa perseguição. A viatura da PM parou e dois policiais fuzilaram seu carro. Foram 17 perfurações. Três tiros – um na cabeça – mataram João Roberto. Um dos policiais acaba de ser absolvido.

Essa tragédia transcende de longe, em ignorância, os outros casos de impunidade neste ano: o segurança da juíza que matou a tiros um universitário diante de uma boate em Ipanema, no Rio, e o promotor Thales Schoedl, que matou a tiros um jogador de basquete na praia paulista de Bertioga. Foram absolvidos por legítima defesa. Em ambos os casos, o segurança e o promotor usaram armas de fogo para decidir brigas de rua que poderiam se limitar a agressões. O segurança estava “com medo” dos jovens desarmados. O promotor estava “com medo” dos jovens mais altos que ele, desarmados, e atirou 12 vezes.

Devo também adquirir uma arma para disparar quando me sentir ameaçada por pessoas desarmadas? Como tenho 1,60 metro, quase todo mundo é mais alto do que eu. Será que estou desatualizada, em descompasso com as leis do país, andando por aí sem revólver num cenário de faroeste?

Sou a favor do desarmamento da sociedade. Posso ser chamada de ingênua. Mas jamais compraria ou permitiria uma arma em casa. Porque arma serve para matar ou morrer. Se tivesse porte de arma devido a meu cargo ou profissão, a responsabilidade teria de ser dobrada antes de tirar a vida de alguém e acabar com a alegria de uma família.



O governador do Rio chamou os PMs de “insanos e débeis entais”.
O júri concluiu que eles cumpriram seu dever
A morte de João Roberto não foi uma fatalidade. Foi um crime grotesco. Sem o argumento batido da legítima defesa. No dia seguinte ao assassinato, o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, disse: “Esses PMs são insanos e débeis mentais”. E continuou: “Uma atrocidade cometida contra inocentes. Os policiais estão presos e responderão do ponto de vista criminal”. O tenente-coronel Loury, comandante do 6º Batalhão, disse que “os PMs reconheceram que houve uma m... injustificável”. O ministro da Justiça, Tarso Genro, chamou de “barbárie”. O ministro Paulo de Tarso Vannuchi, dos Direitos Humanos, afirmou: “Não podemos reagir ao caso do menino com blablablá”. E venceu o blablablá. O cabo William de Paula foi condenado a serviço comunitário por “lesão corporal leve” contra a mãe de João Roberto, ferida por estilhaços de vidro. Os policiais tinham sido indiciados por homicídio doloso qualificado – com a intenção de matar, sem chance de defesa da vítima. A decisão do júri foi que eles agiram “no estrito cumprimento do dever”.

Ninguém acha que o cabo e seu colega, o soldado Elias Gonçalves da Costa, saíram de casa com a intenção de matar um menino. Eles perseguiam um Fiat Stilo preto próximo às favelas da Tijuca. Quando viram o Palio Weekend cinza estacionado, não tiveram dúvida. Eram os bandidos, esperando ali para ser mortos. Um delírio. Era um alvo parado. Estavam tão cegos que nem viram a bolsa com pertences de criança jogada pela janela. A mãe de João Roberto saiu do carro aos gritos. Já era tarde.

Você ou eu poderíamos estar dentro do Palio. Poderia ser o filho do governador ou do ministro. Poderiam ser jovens da favela ou até bandidos. O cabo e o soldado são PMs mal pagos, mal treinados. Vamos atirar, depois a gente descobre quem morreu e monta uma versão. Os policiais inventaram um tiroteio. Um vídeo os desmentiu.

O pai de João Roberto, o taxista Paulo Roberto, gritou após a sentença: “E se minha mulher também tivesse sido morta?”.

A absolvição equivale a uma licença para matar indiscriminadamente. Foi um tapa na cara da sociedade, do governador, do ministro, que esperavam uma punição exemplar. Quem é o réu? O Estado, que joga na rua uma tropa sem preparo técnico e emocional? Ou os policiais, que têm de pagar por seu erro fatal? Alguém precisa assumir a culpa pela morte de João Roberto.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Ana Carolina Oliveira, por Francisco Cembranelli







A mãe de Isabella Nardoni comoveu o país com a força diante da dor



Conheci Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, cerca de dez dias depois da morte da menina. Sem querer, ela foi colocada no centro de uma tragédia singular e de repercussão nacional. Nessa história toda, a única pessoa que sofreu mais que ela foi a própria Isabella. Numa situação dessas, algumas pessoas se isolam completamente. Outras têm repentes de fúria. Mas Ana Carolina encontrou um ponto de equilíbrio e, desde o início, vem se comportando de maneira admirável. Em nenhum momento perdeu a compostura. Apesar de estar mergulhada num sofrimento profundo e de ser muito jovem para suportar tudo isso, ela sempre se comportou de forma decente e procurou respeitar a todos – até àqueles que a criticaram, como o pai do réu Alexandre Nardoni, e aos que não compreenderam a razão de seu comportamento equilibrado ao falar com jornalistas e ir a programas de televisão. Aos poucos, Ana Carolina está tentando reconstruir a própria vida e readaptar-se à rotina sem Isabella. O apoio de sua família, principalmente dos pais e dos irmãos, tem sido fundamental. Apesar da imensa dor e de saber que nada vai compensar a perda trágica da filha, Ana Carolina não se omitiu em nenhum momento. O desejo dela é que a justiça seja feita.

Francisco Cembranelli, promotor de Justiça que trabalha no caso Isabella

sexta-feira, outubro 24, 2008

Eloá: vida e morte “a qualquer preço” - Ruth de Aquino para a Revista ÉPOCA





Eloá tinha a idade das debutantes quando foi morta pelo primeiro namorado com um tiro na cabeça. Pode parecer careta, mas as festas de 15 anos não saíram de moda. A doce e bonita Eloá foi seqüestrada e executada por Lindemberg, um discípulo de 22 anos do assassino septuagenário e impune Pimenta Neves. Uma estirpe de machos que não aceitam a rejeição. Foram cem horas de crueldade e covardia de Lindemberg. Para completar, a polícia errou e parte da mídia exagerou.
A tragédia começou quando Lindemberg, sete anos mais velho que Eloá, decidiu que ela não seria de mais ninguém. Os crimes passionais são quase um privilégio masculino. Se, como diz a lenda, mulheres são mais ciumentas, por que raramente matam ao ser abandonadas? “Homens são por natureza mais violentos, predadores. É o instinto homicida dos machos, o mesmo dos lobos, dos animais”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Py. Ao decidir terminar um caso de amor, a mulher está mais vulnerável a ser assassinada.

Dias depois do crime de Santo André, outro jovem de 22 anos, Daniel Pereira, invadiu a casa da ex-namorada, Camila Araújo, de 16 anos, e a matou com um tiro na cabeça. Na frente do filho dos dois, bebê de 1 ano e meio. Daniel queria passear e reatar com Camila. Mas ela não queria. Ele voltou meia hora depois com um revólver 38 e a matou. Dormiu na casa de um amigo. No dia seguinte, foi preso.

Ninguém deu muita bola para esse crime, sem contornos de espetáculo. Não havia seqüestro. Nem mártires. Nem policiais cercando um prédio. É provável que Daniel tenha se inspirado em Lindemberg. Mas ele não virou o “príncipe do gueto”. Camila, mãe precoce, foi enterrada pela família. Não houve cortejo de 12 mil pessoas, tampouco aplausos como no enterro apoteótico de Eloá. Um crime foi abrupto e particular, como tantos. O outro se estendeu por dias, escancarou o despreparo policial e aumentou absurdamente a audiência da televisão. Especialmente de programas especializados não em jornalismo, mas em manter a massa ligada a qualquer preço.

Não há estatísticas de crimes passionais no Brasil. Dos 45 mil homicídios por ano, os cálculos sobre mulheres mortas assim variam de 2.500 a 10 mil. Os assassinos são maridos, namorados, amantes, conhecidos e ex-tudo. A Justiça contribui ao não punir criminosos como o jornalista Pimenta Neves, que matou há oito anos a colega Sandra Gomide porque ela não queria mais namorá-lo. Saiu de casa armado, matou-a com um tiro pelas costas e outro no ouvido, confessou, foi condenado e livrou-se da cadeia. Há duas semanas, Pimenta Neves pediu à OAB um registro de advogado, 35 anos depois de ter recebido o diploma da faculdade de Direito. Por que tanto desplante?

O culpado é, claro, o assassino. Mas, no caso Eloá, a polícia abusou do direito de errar. E a mídia ultrapassou fronteiras éticas. Não consigo aceitar que se entrevistem ao vivo seqüestradores armados sem ao menos consultar quem negocia o resgate. A polícia não pode reclamar da mídia. Juntos, criaram o seu Big Brother e transformaram Lindemberg “no cara”. Policiais adoram aparecer como Rambos, abrem suas conversas com o bandido para microfones sedentos. Permite-se que sinais de televisão e celular cheguem ao cativeiro e perde-se o controle. Lindemberg escuta os ecos de sua voz, sente o gosto da fama. Eloá vai para a janela, Nayara volta, e alguém ainda vai faturar com esse roteiro no cinema. Dois clássicos são O Quarto Poder, de Costa-Gavras, e A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder.

Há nos seres humanos a tentação de agir “a qualquer preço”. Um candidato à Prefeitura do Rio afirmou em toda a campanha que não queria vencer “a qualquer preço”. É uma reflexão importante. Muitos de nós tentamos, “a qualquer preço”, preservar o casamento, manter o emprego, ser promovido, ganhar o jogo de futebol, bater os índices de audiência, vender mais revistas, passar numa prova, sair vitorioso numa eleição, lucrar mais, enriquecer. Não vamos nos iludir: “a qualquer preço” é um preço alto demais.

sábado, agosto 16, 2008

http://malueavalise.blogspot.com/

Desigual
Nasci num lugar chamado Itaquera. No último dia 4, um garoto de quatro anos, Rhian Henrique dos Santos Cuellar desapareceu por lá. Ele estava na casa da avó. Casa de gente humilde, simples, que mora em barracos e cortiços. São pessoas com as quais eu convivo e conheço há bastante tempo. A vida daquelas pesosas já era difícil e com o desaparecimento da criança o desespero tomou conta.

Na madrugada desta quinta-feira, o corpo de Rhian apareceu abandonado dentro de uma casinha de cachorro. A imprensa noticiou e este foi o assunto do dia no programa do Datena. Provavelmente será o assunto nos cadernos policiais dos jornais de amanhã. O garoto foi sequestrado, torturado, abusado sexualmente e morreu pelas mãos de um adolescente de 16 anos que lhe esmagou a cabeça com uma pedra.

Não há como saber mais nada da vida depois disso. Nesse canto do mundo chamado Itaquera, o amor ainda não chegou e a felicidade nunca plantou.


Desigual


Eu vivo num lugar
Em que as pessoas são felicidade
Sorriem no mundo sem maldade
Das oportunidades que a vida lhes deu

E então nesse lugar
Não há quem não duvide:
Como alguém pode ser triste
Se eu só quero ser feliz?

E aqui neste lugar
Muita gente não tem a chance
De viver sequer um instante
E de poder sentir-se assim

Pois este é o lugar
Onde todos andam de abraços
Dos amigos e gestos ricaços
Sem saber que o bem é a crueldade mais cruel

Foi aqui neste lugar
Que inventaram a ditadura
O Tráfico, a extorsão, a tortura
E mataram o menino Rhian

Este é o lugar
Onde roubam garotinhos
Lhes arrancam os carinhos
E os abandonam semi-nus

Neste lugar
O povo caminha sem futuro e sem memórias
Vendem drogas e não contam histórias
Nem escolhem pra onde o destino vai caminhar

É aqui o lugar
De uma gente que trabalha e é pobre
Não almoçam carne e vivem de vender cobre
Nas mazelas que a vida lhe dá

Daqui deste lugar
Ninguém viu faculdade, caderno, lousa ou giz
Daqui, meu camarada, ninguém conhece Paris
Para eles não tem um triz do prazer que os humilha

O nome deste lugar
Se chama Planeta Terra
Codinome de fome e guerra
...para os pobre não inventaram a paz

É aqui neste lugar
Que não vejo sorriso algum
Que pergunto a qualquer um
Porque é que sofrem tanto?
Porque é que não têm um canto?

Existirá, quem sabe, um dia
Para esta gente meretriz
A chance de ser feliz?