sábado, dezembro 13, 2008





Quem matou João Roberto?


RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.brNão foi fatalidade o assassinato de João Roberto, de 3 anos, num domingo de julho, quase na esquina de casa, na Tijuca, Rio de Janeiro. Fatalidade é bala perdida, é estar no meio de um fogo cruzado. A mãe de João Roberto, a advogada Alessandra Soares, estacionou para evitar uma fatalidade. Deixou a polícia passar numa perseguição. A viatura da PM parou e dois policiais fuzilaram seu carro. Foram 17 perfurações. Três tiros – um na cabeça – mataram João Roberto. Um dos policiais acaba de ser absolvido.

Essa tragédia transcende de longe, em ignorância, os outros casos de impunidade neste ano: o segurança da juíza que matou a tiros um universitário diante de uma boate em Ipanema, no Rio, e o promotor Thales Schoedl, que matou a tiros um jogador de basquete na praia paulista de Bertioga. Foram absolvidos por legítima defesa. Em ambos os casos, o segurança e o promotor usaram armas de fogo para decidir brigas de rua que poderiam se limitar a agressões. O segurança estava “com medo” dos jovens desarmados. O promotor estava “com medo” dos jovens mais altos que ele, desarmados, e atirou 12 vezes.

Devo também adquirir uma arma para disparar quando me sentir ameaçada por pessoas desarmadas? Como tenho 1,60 metro, quase todo mundo é mais alto do que eu. Será que estou desatualizada, em descompasso com as leis do país, andando por aí sem revólver num cenário de faroeste?

Sou a favor do desarmamento da sociedade. Posso ser chamada de ingênua. Mas jamais compraria ou permitiria uma arma em casa. Porque arma serve para matar ou morrer. Se tivesse porte de arma devido a meu cargo ou profissão, a responsabilidade teria de ser dobrada antes de tirar a vida de alguém e acabar com a alegria de uma família.



O governador do Rio chamou os PMs de “insanos e débeis entais”.
O júri concluiu que eles cumpriram seu dever
A morte de João Roberto não foi uma fatalidade. Foi um crime grotesco. Sem o argumento batido da legítima defesa. No dia seguinte ao assassinato, o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, disse: “Esses PMs são insanos e débeis mentais”. E continuou: “Uma atrocidade cometida contra inocentes. Os policiais estão presos e responderão do ponto de vista criminal”. O tenente-coronel Loury, comandante do 6º Batalhão, disse que “os PMs reconheceram que houve uma m... injustificável”. O ministro da Justiça, Tarso Genro, chamou de “barbárie”. O ministro Paulo de Tarso Vannuchi, dos Direitos Humanos, afirmou: “Não podemos reagir ao caso do menino com blablablá”. E venceu o blablablá. O cabo William de Paula foi condenado a serviço comunitário por “lesão corporal leve” contra a mãe de João Roberto, ferida por estilhaços de vidro. Os policiais tinham sido indiciados por homicídio doloso qualificado – com a intenção de matar, sem chance de defesa da vítima. A decisão do júri foi que eles agiram “no estrito cumprimento do dever”.

Ninguém acha que o cabo e seu colega, o soldado Elias Gonçalves da Costa, saíram de casa com a intenção de matar um menino. Eles perseguiam um Fiat Stilo preto próximo às favelas da Tijuca. Quando viram o Palio Weekend cinza estacionado, não tiveram dúvida. Eram os bandidos, esperando ali para ser mortos. Um delírio. Era um alvo parado. Estavam tão cegos que nem viram a bolsa com pertences de criança jogada pela janela. A mãe de João Roberto saiu do carro aos gritos. Já era tarde.

Você ou eu poderíamos estar dentro do Palio. Poderia ser o filho do governador ou do ministro. Poderiam ser jovens da favela ou até bandidos. O cabo e o soldado são PMs mal pagos, mal treinados. Vamos atirar, depois a gente descobre quem morreu e monta uma versão. Os policiais inventaram um tiroteio. Um vídeo os desmentiu.

O pai de João Roberto, o taxista Paulo Roberto, gritou após a sentença: “E se minha mulher também tivesse sido morta?”.

A absolvição equivale a uma licença para matar indiscriminadamente. Foi um tapa na cara da sociedade, do governador, do ministro, que esperavam uma punição exemplar. Quem é o réu? O Estado, que joga na rua uma tropa sem preparo técnico e emocional? Ou os policiais, que têm de pagar por seu erro fatal? Alguém precisa assumir a culpa pela morte de João Roberto.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Ana Carolina Oliveira, por Francisco Cembranelli







A mãe de Isabella Nardoni comoveu o país com a força diante da dor



Conheci Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, cerca de dez dias depois da morte da menina. Sem querer, ela foi colocada no centro de uma tragédia singular e de repercussão nacional. Nessa história toda, a única pessoa que sofreu mais que ela foi a própria Isabella. Numa situação dessas, algumas pessoas se isolam completamente. Outras têm repentes de fúria. Mas Ana Carolina encontrou um ponto de equilíbrio e, desde o início, vem se comportando de maneira admirável. Em nenhum momento perdeu a compostura. Apesar de estar mergulhada num sofrimento profundo e de ser muito jovem para suportar tudo isso, ela sempre se comportou de forma decente e procurou respeitar a todos – até àqueles que a criticaram, como o pai do réu Alexandre Nardoni, e aos que não compreenderam a razão de seu comportamento equilibrado ao falar com jornalistas e ir a programas de televisão. Aos poucos, Ana Carolina está tentando reconstruir a própria vida e readaptar-se à rotina sem Isabella. O apoio de sua família, principalmente dos pais e dos irmãos, tem sido fundamental. Apesar da imensa dor e de saber que nada vai compensar a perda trágica da filha, Ana Carolina não se omitiu em nenhum momento. O desejo dela é que a justiça seja feita.

Francisco Cembranelli, promotor de Justiça que trabalha no caso Isabella

sexta-feira, outubro 24, 2008

Eloá: vida e morte “a qualquer preço” - Ruth de Aquino para a Revista ÉPOCA





Eloá tinha a idade das debutantes quando foi morta pelo primeiro namorado com um tiro na cabeça. Pode parecer careta, mas as festas de 15 anos não saíram de moda. A doce e bonita Eloá foi seqüestrada e executada por Lindemberg, um discípulo de 22 anos do assassino septuagenário e impune Pimenta Neves. Uma estirpe de machos que não aceitam a rejeição. Foram cem horas de crueldade e covardia de Lindemberg. Para completar, a polícia errou e parte da mídia exagerou.
A tragédia começou quando Lindemberg, sete anos mais velho que Eloá, decidiu que ela não seria de mais ninguém. Os crimes passionais são quase um privilégio masculino. Se, como diz a lenda, mulheres são mais ciumentas, por que raramente matam ao ser abandonadas? “Homens são por natureza mais violentos, predadores. É o instinto homicida dos machos, o mesmo dos lobos, dos animais”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Py. Ao decidir terminar um caso de amor, a mulher está mais vulnerável a ser assassinada.

Dias depois do crime de Santo André, outro jovem de 22 anos, Daniel Pereira, invadiu a casa da ex-namorada, Camila Araújo, de 16 anos, e a matou com um tiro na cabeça. Na frente do filho dos dois, bebê de 1 ano e meio. Daniel queria passear e reatar com Camila. Mas ela não queria. Ele voltou meia hora depois com um revólver 38 e a matou. Dormiu na casa de um amigo. No dia seguinte, foi preso.

Ninguém deu muita bola para esse crime, sem contornos de espetáculo. Não havia seqüestro. Nem mártires. Nem policiais cercando um prédio. É provável que Daniel tenha se inspirado em Lindemberg. Mas ele não virou o “príncipe do gueto”. Camila, mãe precoce, foi enterrada pela família. Não houve cortejo de 12 mil pessoas, tampouco aplausos como no enterro apoteótico de Eloá. Um crime foi abrupto e particular, como tantos. O outro se estendeu por dias, escancarou o despreparo policial e aumentou absurdamente a audiência da televisão. Especialmente de programas especializados não em jornalismo, mas em manter a massa ligada a qualquer preço.

Não há estatísticas de crimes passionais no Brasil. Dos 45 mil homicídios por ano, os cálculos sobre mulheres mortas assim variam de 2.500 a 10 mil. Os assassinos são maridos, namorados, amantes, conhecidos e ex-tudo. A Justiça contribui ao não punir criminosos como o jornalista Pimenta Neves, que matou há oito anos a colega Sandra Gomide porque ela não queria mais namorá-lo. Saiu de casa armado, matou-a com um tiro pelas costas e outro no ouvido, confessou, foi condenado e livrou-se da cadeia. Há duas semanas, Pimenta Neves pediu à OAB um registro de advogado, 35 anos depois de ter recebido o diploma da faculdade de Direito. Por que tanto desplante?

O culpado é, claro, o assassino. Mas, no caso Eloá, a polícia abusou do direito de errar. E a mídia ultrapassou fronteiras éticas. Não consigo aceitar que se entrevistem ao vivo seqüestradores armados sem ao menos consultar quem negocia o resgate. A polícia não pode reclamar da mídia. Juntos, criaram o seu Big Brother e transformaram Lindemberg “no cara”. Policiais adoram aparecer como Rambos, abrem suas conversas com o bandido para microfones sedentos. Permite-se que sinais de televisão e celular cheguem ao cativeiro e perde-se o controle. Lindemberg escuta os ecos de sua voz, sente o gosto da fama. Eloá vai para a janela, Nayara volta, e alguém ainda vai faturar com esse roteiro no cinema. Dois clássicos são O Quarto Poder, de Costa-Gavras, e A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder.

Há nos seres humanos a tentação de agir “a qualquer preço”. Um candidato à Prefeitura do Rio afirmou em toda a campanha que não queria vencer “a qualquer preço”. É uma reflexão importante. Muitos de nós tentamos, “a qualquer preço”, preservar o casamento, manter o emprego, ser promovido, ganhar o jogo de futebol, bater os índices de audiência, vender mais revistas, passar numa prova, sair vitorioso numa eleição, lucrar mais, enriquecer. Não vamos nos iludir: “a qualquer preço” é um preço alto demais.

sábado, agosto 16, 2008

http://malueavalise.blogspot.com/

Desigual
Nasci num lugar chamado Itaquera. No último dia 4, um garoto de quatro anos, Rhian Henrique dos Santos Cuellar desapareceu por lá. Ele estava na casa da avó. Casa de gente humilde, simples, que mora em barracos e cortiços. São pessoas com as quais eu convivo e conheço há bastante tempo. A vida daquelas pesosas já era difícil e com o desaparecimento da criança o desespero tomou conta.

Na madrugada desta quinta-feira, o corpo de Rhian apareceu abandonado dentro de uma casinha de cachorro. A imprensa noticiou e este foi o assunto do dia no programa do Datena. Provavelmente será o assunto nos cadernos policiais dos jornais de amanhã. O garoto foi sequestrado, torturado, abusado sexualmente e morreu pelas mãos de um adolescente de 16 anos que lhe esmagou a cabeça com uma pedra.

Não há como saber mais nada da vida depois disso. Nesse canto do mundo chamado Itaquera, o amor ainda não chegou e a felicidade nunca plantou.


Desigual


Eu vivo num lugar
Em que as pessoas são felicidade
Sorriem no mundo sem maldade
Das oportunidades que a vida lhes deu

E então nesse lugar
Não há quem não duvide:
Como alguém pode ser triste
Se eu só quero ser feliz?

E aqui neste lugar
Muita gente não tem a chance
De viver sequer um instante
E de poder sentir-se assim

Pois este é o lugar
Onde todos andam de abraços
Dos amigos e gestos ricaços
Sem saber que o bem é a crueldade mais cruel

Foi aqui neste lugar
Que inventaram a ditadura
O Tráfico, a extorsão, a tortura
E mataram o menino Rhian

Este é o lugar
Onde roubam garotinhos
Lhes arrancam os carinhos
E os abandonam semi-nus

Neste lugar
O povo caminha sem futuro e sem memórias
Vendem drogas e não contam histórias
Nem escolhem pra onde o destino vai caminhar

É aqui o lugar
De uma gente que trabalha e é pobre
Não almoçam carne e vivem de vender cobre
Nas mazelas que a vida lhe dá

Daqui deste lugar
Ninguém viu faculdade, caderno, lousa ou giz
Daqui, meu camarada, ninguém conhece Paris
Para eles não tem um triz do prazer que os humilha

O nome deste lugar
Se chama Planeta Terra
Codinome de fome e guerra
...para os pobre não inventaram a paz

É aqui neste lugar
Que não vejo sorriso algum
Que pergunto a qualquer um
Porque é que sofrem tanto?
Porque é que não têm um canto?

Existirá, quem sabe, um dia
Para esta gente meretriz
A chance de ser feliz?

segunda-feira, junho 09, 2008

Se as relações familiares não fossem intrinsecamente complicadas, não existiria o mandamento "Honrarás pai e mãe”. Comentário de grande sabedoria. Assunto inesgotável. Como educar, como cuidar neste mundo maravilhoso e tresloucado, com tanta sedução e tanta informação – um mundo no qual, sobretudo na juventude, nem sempre há o necessário discernimento para escolher bem?

Saber distinguir o melhor do pior, ser capaz de observar e argumentar, são o melhor legado que família e escola podem dar. Na família, fica abaixo só do afeto e da segurança emocional. Na escola, importa mais do que o acúmulo de informações e o espaço das brincadeiras, num sistema que aprendeu erroneamente que se deve ensinar como se o aluno não tivesse de aprender. Fora disso, meus caros, não há salvação. Isso e professores supervalorizados e bem pagos, escola para todos — não mais milhões de crianças e jovens em casas cujo pátio é barro misturado a esgoto, ou na rua, com o crack e a prostituição. Um ensino que dê muito e exija bastante: ou caímos na farra e no despreparo para a vida, que inclui graves decisões pessoais e um mercado de trabalho cruel.

Bem antes da escola vem o fundamental, o ambiente em casa, que marca o indivíduo pelo resto de sua jornada. Se esse ambiente for positivo, amoroso, a criança acreditará que amor e harmonia são possíveis, que ela pode ter e construir isso, e fará nesse sentido suas futuras escolhas pessoais. Se o clima for de ressentimento, frieza, mágoas ocultas e desejos negativos, o chão por onde o indivíduo vai caminhar será esburacado. Mais irá tropeçar, mais irá quebrar a cara e escolher para si mesmo o pior.

Dificuldades familiares não têm a ver só com o natural conflito de gerações, mas também com a atitude geral dos pais. Eles têm entre si uma relação de lealdade, carinho, alegria? São realmente interessados, tentam assumir suas responsabilidades grandes e difíceis? Foi-se o patriarcado, em que havia regras rígidas. Eu não quereria estar na pele dos infratores de então, os filhos que ousavam discordar. Em lugar da anterior rigidez e distância, estabeleceu-se a alegre bagunça, com mais demonstrações de afeto, mais liberdade, mais respeito pelas individualidades — muitas vezes com resultados dramáticos. Lembro a frase que já escrevi nesta coluna, do psicólogo que me revelou: "A maior parte dos jovens perturbados que atendo não tem em casa pai e mãe, tem um gatão e uma gatinha". Talvez tenham uma mãe que não troca cabeleireiro e academia por horas de afeto com os filhos, ou um pai que corre atrás do dinheiro necessário para manter a família acima de suas possibilidades, por ilusão sua ou desejo de status de uma mulher frívola.

Crianças de 11 anos freqüentam festinhas em que rola o inenarrável: onde estão pai e mãe? Adolescentezinhos rodam de madrugada pelas ruas, dirigindo bêbados ou drogados: onde estão pai e mãe? Quase crianças passam fins de semana em casas de serra e praia reais ou fictícios, com adultos irresponsáveis ou só entre outras crianças, transando precocemente, drogando-se, engravidando, semeando infelicidade, culpa, desorientação pela vida afora. Onde estão os pais?

Ter filho é talvez a maior fonte de alegria, mas também é ser responsável, ah sim! Nisso sou rigorosa e pouco simpática, eu sei. Esse é o dilema fundamental numa sociedade que prega a liberalidade, o “divirta-se”, o “cada um na sua”, como num pré-apocalipse. Mais grave ainda num momento em que a honradez de figuras públicas (que deveriam ser nossos guias e modelos) é quase uma extravagância. Pais bonzinhos são tão danosos quanto pais indiferentes: o amor não se compra com presentes, nem permitindo tudo, nem fingindo não saber ou não querendo saber, muito menos desviando o olhar quando ele devia estar vigilante. Quem ama cuida: velho princípio inegável, incontornável e imortal, tantas vezes violado.


Lya Luft, Revista Veja, edição de 11 Junho de 2008

sexta-feira, maio 23, 2008


ANA CAROLINA E ISABELLA. TENTEI ACHAR UMA IMAGEM DA MÃE TRISTE. MAS ESTE SORRISO DO PASSADO FALA MAIS A RESPEITO DA DOR QUE ESTÁ SENTINDO AGORA DO QUE MIL LÁGRIMAS. QUEM PODE AVALIAR SEU SENTIMENTO?

O caso mais chocante dos últimos tempos sem dúvida é a morte da menina Isabella, e a prisão do pai e da madrasta como possíveis autores do crime. Mas já me aconteceu, várias vezes, de ouvir o seguinte comentário:
-- Eu só não entendo a reação da mãe da menina, tão fria.
Houve até quem levantasse a suspeita de que ela poderia estar sabendo de alguma coisa, sei lá.
Sabe o que me desgosta cada vez que ouço isso? A mãe de Isabella, Ana Carolina de Oliveira preferiu manter o silêncio sobre o caso, até por conselho judicial. Recusou-se a dar entrevistas. Só se aparece em eventos onde inclusive distribui camisetas com a imagem da pequena Isabella, aceita posar para fotos. Mas não deu o espetáculo do desespero que todos esperavam. Não chorou agarrada em um microfone. Não fez o circuito dos programas de entrevistas se rasgando diante das cameras, mostrando a boneca de Isabella, os vestidinhos, etc etc. Ana Carolina de Oliveira não transformou a dor num circo. É o suficiente para acharem que é fria!
Mas o que está acontecendo!? Estamos todos viciados em mídia? Há quem faça questão de dar detalhes de seus romances para revistas, como se não conseguisse viver sem aparecer. Bem, eis a surpresa! Nem todo mundo faz questão de lavar a roupa suja em público. De bater no peito diante das cameras. De chorar agarrada num microfone, de olho no close. Ana Carolina de Oliveira preferiu ficar em casa, com seus pais. Respeitar sua própria dor. Isso demonstra dignidade. Não tem nada a ver com frieza.
Só quem perdeu um filho tem a noção do tamanho desse sofrimento que aliás, não tem tamanho. É uma perda incompreensível, porque fomos programados para partir primeiro. Perder um filho é um atentado contra a ordem natural das coisas. Ou pelo menos essa é a emoção. Agora, mais terrível él imaginar perder um filho nas mãos do próprio pai, acusado da morte da menina. Imagino essa moça de classe média, com uma filha que ela adorava. Alexandre, o pai da menina ia buscá-la nos fins de semana, e Ana acreditava que Isabella estava segura. Porque não estaria? Houve uma época em que ela amou Alexandre. Beijaram-se. Tiveram momentos de carinho, de emoção. Nasceu Isabella. Como entender o tamanho dessa traição de um homem que foi seu íntimo? Como aceitar a perda? E como ainda por cima ir aos jornais, revistas, televisão, para fazer alarde da própria dor e agradar a sede de tragédia do público?
Quando alguém morre, às vezes a gente demora tempo para realizar a perda internamente. Lembro que quando minha mãe faleceu, de cancer, no hospital, sofri muito. Chorei. E por muito tempo depois, às vezes seu telefone vinha na minha cabeça e eu tinha vontade de ligar, estendia a mão para o aparelho. E só então lembrava que não havia mais para onde ligar.
Talvez Ana Carolina ainda esteja realizando nesse sentido a morte de Isabella. A ficha ainda não caiu inteira.Talvez por isso consiga ir a um evento e agir socialmente. Isso não significa que seja fria. Significa sim, que não sucumbiu ao desejo de fama fácil, a qualquer preço, à tentação de aparecer por conta da tragédia da filha. É uma atitude respeitável. Ana Carolina, parabéns!


Texto de Walcir Carrasco

terça-feira, maio 20, 2008

Caso Isabella



A dor da falta de sentido.

ARNALDO JABOR


Tentei não ler sobre a morte de Isabella. Evitei na época detalhes do assassinato do menino João Helio – na minha profissão há que selecionar horrores. Mas não consegui. Vi o desfecho do caso da menina.

A tragédia não é só das vítimas, mas nós também sofremos para entender o mal incompreensível. Cresce aos poucos pele de rinoceronte em nossa alma; com coração mais duro, ficamos mais cínicos, passivos diante da crueldade.

Como escreveu Oswaldo Giacoia Jr: 'O insuportável não é só a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido.'

Como entender que um pai e uma madrasta possam ter ferido, estrangulado e atirado uma menininha de 5 anos pela janela? Como entender a cara sólida e cínica que eles ostentam, para fingir inocência? Como não demonstram sentimento de culpa algum? Ninguém berra? Chora? Como podem querer viver depois disso? Como essa família toda – pais, mães, irmãos – se une na ocultação de crime? Como o avô pôde dizer com cara-de-pau que 'se meu filho fosse culpado eu denunciaria? Que quer esta gente? Preservar o nome da família? São parentes ou cúmplices? Como podem os advogados de defesa posar de gravata e terninho e cara limpa, falando de 'terceira pessoa'? Sei que responderiam: 'todos têm direito de defesa...', mas, como é que eles têm estômago?

A polícia deu um show de bola pericial no caso Isabella, mas dá para sentir que nossa estrutura penal está muito defasada. Como se pode tolerar que sujeito que foi condenado na semana passada somente a 13 anos por ter esquartejado a namorada, alegando 'legítima defesa', possa ficar em liberdade 'até esgotar todos os recursos que a lei prevê?' Como entender que o jornalista Pimenta das Neves, que premeditou o assassinato da namorada com dois tiros pelas costas e na cabeça, condenado já há seis anos, esteja em liberdade? E aquele garoto que matou pai e mãe nos Jardins de SP e a família rica conseguiu esconder?

As leis de execução penal têm de ser aceleradas, as punições, mais temíveis, mais violentas, mais rápidas. Há crescimento da crueldade acima de qualquer codificação jurídica. Esta lentidão, arcaísmo da Justiça é visível não só nos chamados 'crimes de classe média', como na barbárie que galopa nas periferias. O Elias Maluco – lembram? – aquele que matou o Tim Lopes com golpes de espada, estava em 'liberdade condicional', pois a lei concede isso ao 'cidadão'. Que cidadão? O conceito de cidadania tem de ser revisto. Cidadania é merecimento. Surgiu na miséria do país uma raça de subhumanos, sub-bichos que todos os dias degolam, esquartejam, botam no 'microondas', e são 'cidadãos.' Qual será o nome dessa coisa informe que a miséria está gerando? É uma mistura de lixo e sangue, uma nova língua de grunhidos, mais além da maldade, uma pura explosão de vingança. Não se trata mais de uma perversão do 'humano', mas, do 'animal' em nós.

Há novas formas de crime que tem de ser estudadas e antigos direitos e penas, revistos. Os pensadores da Justiça continuam a tratar os crimes como 'desvios da norma'. Tem que acabar o tempo dos casuísmos, das leniências, das chicanas. Vivemos trancados num racionalismo impotente diante desse bucho indomável da miséria. Vejo se formar desejo crescente pelo horror, pela crueldade, quase uma fome de catástrofe. Não falo dos analfabetos desvalidos e loucos, mas os assassinos de classe média já têm o prazer perverso de fazer o inominável.

E este casal de pedra, estes monstros? Será que vão se defender em liberdade, esgotando 'todos os recursos da lei', como o esquartejador com 'justa causa' ou o assassino daquela menina morta pelas costas, livre e solto? Serão condenados a 10 aninhos com atenuantes e macetes? Que acontecerá com eles, depois de estrangularem e jogarem a filha pela janela?

A lei tem de ser mais temida, rápida, cruel. Por que tantos crimes contra as crianças? O caso do João Hélio, crianças decapitadas na Febém, jogadas em pântano em Minas, no lixão, aquela psicopata em Goiás que contratava meninas pobres para torturar, pedofilia, tudo...

As crianças são fontes inconscientes de terror, de Herodes a Édipo e Moisés. O rei Agamenon matou sua filha Ifigenia para ter tempo bom em guerra. Que dizem os antropólogos dos rituais de matança de inocentes, como foi em nossa terra Pedra Bonita, que ficou vermelha do sangue? Em sociedades primitivas, o sacrifício de animais e o sangue de inocentes servem para afastar doenças, prever futuro, saciando o ódio dos deuses. Será que matam nessas crianças o horror a futuro que não há?

É tão inútil usar as palavras racionalmente diante da brutalidade deste 'outro pais' do crime e da miséria, que caio em desânimo.

Perguntamos, horrorizados: 'Por que fizeram aquilo?'. Resposta: 'Por nada...'

VAI SER FELIZ, MULHER!


O que precisamos para ser felizes?
Uma familia, um trabalho, um amor?
E quando um desses itens falha?
Devemos desistir? Seguir em frente? Ou quem sabe até, mudar de pensamento?
Nunca! Vamos viver e tentar de todas as formas conquistar o que sonhamos, ainda que seja o mínimo que desejamos. O importante é não desistir. Quem sabe um dia,tudo que pensávamos perdido venha prá nós de forma inesperada e fiquemos boquiaberta por a vida ser tão maravilhosa e nos dar tudo que queremos e que já não esperávamos mais...