quarta-feira, julho 21, 2010

Nao julgarás a moral alheia




Moral deveria ser uma palavra boa. Está ligada ao espírito ético, à boa conduta, ao comportamento civilizado. Mas a moral, por assim dizer, perdeu a moral com a galera. Por causa de seu derivativo 'moralista', a imagem de quem fala sobre moral é sempre associada a uma coisa retrógrada, má, julgadora.

Se 'moral' fosse uma pessoa, a figura caricata seria de uma mulher madura, enfezada, assexuada e cruel, como as personagens estereotipadas das diretoras malvadas das escolas fundamentais dos filmes.
No momento, a diretora cruel que representa a moral volta às notícias de primeira página para julgar e punir a todos, principalmente, as vítimas.
Eliza Samudio está desaparecida e tudo aponta para um assassinato, talvez mais um caso de violência passional que termina em crime contra uma mulher. Eliza, portanto, seria a vítima.

Ao mesmo tempo que os profissionais buscam provas, indícios e testemunhas para encontrar Eliza, uma onda de fotos, fatos, boatos e vídeos sobre a vida e conduta da jovem circula livremente pela rede.

Eu, que sou como todo mundo, também me envolvo com as coisas que vejo. Cada imagem, cada texto, vai gerando um novo sentimento em mim. A amiga, o bebê, o goleiro, a mulher do goleiro, as fotos de Eliza grávida, vão se somando numa gaveta do meu cérebro, onde acompanho e arquivo o caso que salta aos nossos olhos nas manchetes. A tatuagem ressaltada no círculo vermelho que mostra que aquele corpo numa pose sexual, o mesmo da gestante da outra foto, me faz sentir uma certa repulsa por quem fez a comparação. O vídeo sexy, o outro mais sensual e o link para um vídeo pornô, me dão uma dor muito grande na alma. Não tenho vontade de ver, nem clico no link. Sinto só uma vontade de chorar.

Porém, independentemente das reações que cada informação ou imagem me causem num primeiro momento, eu sou um ser humano que sente E pensa. E não importa o que Eliza tenha feito em sua vida, nada justificaria ser assassinada, caso isso tenha acontecido. Como disse o pai de Eliza, não interessa o que ela fazia. É preciso saber o que aconteceu com ela. E se aconteceu o pior, quem cometeu o crime.

Porque os crimes passionais existem, sim. A violência contra a mulher existe e muito. Existe também a prostituição, a pornografia, o mercado de filmes adultos. Existe a miséria, a ambição, o poder, o deslumbramento, a ilusão. Existem homens cruéis. Existem marias-chuteira. Existe inveja, raiva, crueldade, moralismo, crianças órfãs, pais que perdem seus filhos. E existe a hipocrisia.

Hipocrisia, palavra desconhecida em sua forma ortográfica tanto quanto em seu conteúdo etimológico.

Hipocrisia vem do grego (fui ver no Houaiss) hupokrisía e hupókrisis e quer dizer 'desempenhar um papel, representar, fingir, dissimular'. Fingir é não ser verdadeiro.

Em última instância, sempre que julgamos alguém por sua conduta de vida estamos sendo hipócritas. Porque se vasculharmos os arquivos da nossa própria vida, ou das pessoas do nosso círculo familiar, certamente vamos encontrar coisas que nos desabonariam perante a 'moral' pública. Coisas que não gostaríamos que fossem reveladas ao mundo sem o nosso consentimento. Coisas que ninguém deveria usar contra nós, se estivéssemos numa posição indefesa. Ou se não estivéssemos sequer vivos para exercermos nosso direito de resposta.

É humano sentir o impulso de julgar alguém, de reagir a uma imagem que foge ao nosso cotidiano.

Mas o digno é pegar o impulso, jogá-lo fora e lutar para que o criminoso seja encontrado e punido.

Porque culpar a vítima é ser cúmplice do criminoso.
Não, você não é culpado por ver arquivos na Internet.

A Internet tem que ser sempre livre.

Quem não pode ficar livre é o assassino.

Isso sim

seria totalmente imoral.



Rosana Hermann

domingo, abril 11, 2010

A omissão que mata - Ruth de Aquino



Quem mora lá no morro já vive pertinho do céu. A canção composta por Herivelto Martins em 1942, “Ave Maria no morro”, é um exemplo da relação romântica entre o Rio de Janeiro e a favela. Um amor com final trágico e previsível. Como todos vimos na semana passada, eram pobres e favelados as vítimas da tempestade no Estado. E quem matou essas famílias não foi a fúria das chuvas. Mas governos negligentes, paternalistas, demagogos e irresponsáveis.

O crime mais revoltante foi cometido pelo prefeito Jorge Roberto Silveira, de Niterói.“Eu sabia do lixão ali, mas nunca tinha havido nenhum incidente.” Foi a declaração inocente do prefeito do PDT. Ele comanda Niterói desde 1989, com alguns intervalos para um prefeito do PT. O Morro do Bumba abrigava uma comunidade inteira, com casas, igreja, pizzaria, bares e creche. Tudo sobre um lixão tóxico, desativado em 1986. A comunidade floresceu sob a vista complacente e amiga de Jorge Roberto. A Cedae colocou ali bica d’água. O então governador Brizola levou ao Bumba o programa “Uma luz na escuridão”. Anos depois, a comunidade ganhou quadra de esportes, creche. Brizola virou nome de rua no Bumba. Não dá para acreditar que alguém instruído resolva urbanizar uma área condenada.

O prefeito Jorge Roberto nunca parou para pensar que estava cavando a sepultura de 150 pessoas ou mais, segundo cálculos de moradores.

Por que o lixão desativado não foi cercado por ele? Não era um morro qualquer. Era um amontoado de matéria orgânica que apodrecia e soltava gás metano, um gás explosivo. Aquilo não era um solo. Era uma bomba-relógio. “Você sabe, num país como o nosso, é muito difícil impedir assentamentos irregulares ou remover moradores de áreas de risco”, disse Jorge Roberto. “Tentei o possível, tentei o máximo.” O máximo.

O Morro do Bumba, com sua lama negra de detritos que desceu de uma altura de 600 metros, é o maior retrato da demagogia que pune os pobres. É o resultado da ausência de uma política habitacional para famílias de baixa renda. É a improvisação do salve-se quem puder. É o retrato de gerações de políticos que jamais pensaram a longo prazo, no bem-estar da população e das cidades.

Mas não são apenas políticos. Muitas vezes, é a esquerda-caviar carioca. Ou os gringos de institutos internacionais que vêm fazer tour exótico e social nas favelas para depois tomar champanhe na piscina do Hotel Fasano, de frente para o mar de Ipanema.

Até os nomes das favelas são poéticos. “O que está acontecendo é resultado de anos de demagogia em relação à favela”, diz a antropóloga carioca Alba Zaluar. “É incrível que essas tragédias ocorram em lugares com nomes como Morro dos Prazeres ou Chácara do Céu. As favelas historicamente eram cenários de sambas lindos, espaços de poesia e criatividade. Com o tráfico de drogas, essa visão romântica foi abalada.”

Um barraco pode ser o único patrimônio de uma família. Mas é preciso que o poder público rompa a ideia de que essa afetividade é sinônimo de segurança, em vez de transformar a favela em seu curral eleitoral. “É a própria política que ajuda a construir a noção de que a casa é própria, mesmo que esteja no meio de um barranco que pode cair a qualquer momento”, diz Alba. “E toda a sociedade é conivente com essa ideia.”

Sonho de qualquer cidadão, a casa própria nasce muitas vezes do tijolo e do ferro doados por políticos – não importa sobre que terreno ou com que engenharia a obra será erguida. “São esses mesmos políticos que, tempos depois, buscarão apoio da Justiça ou organizarão manifestações populares para evitar a desapropriação e a remoção – auxiliados por ONGs e movimentos sociais”, diz Fernando Kerzman, presidente da Associação Brasileira de Geografia e Engenharia Ambiental (ABGE).

“É nesses momentos que a gente se orgulha de ser brasileiro”, disse o prefeito Jorge Roberto, diante da língua negra de lama e lixo apodrecido que soterrou seus eleitores. Não pude acreditar. Ele dizia, na televisão, que tudo estava “sob controle” e se confessava emocionado com a solidariedade do presidente Lula e dos bancos.

RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br