sábado, dezembro 13, 2008





Quem matou João Roberto?


RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.brNão foi fatalidade o assassinato de João Roberto, de 3 anos, num domingo de julho, quase na esquina de casa, na Tijuca, Rio de Janeiro. Fatalidade é bala perdida, é estar no meio de um fogo cruzado. A mãe de João Roberto, a advogada Alessandra Soares, estacionou para evitar uma fatalidade. Deixou a polícia passar numa perseguição. A viatura da PM parou e dois policiais fuzilaram seu carro. Foram 17 perfurações. Três tiros – um na cabeça – mataram João Roberto. Um dos policiais acaba de ser absolvido.

Essa tragédia transcende de longe, em ignorância, os outros casos de impunidade neste ano: o segurança da juíza que matou a tiros um universitário diante de uma boate em Ipanema, no Rio, e o promotor Thales Schoedl, que matou a tiros um jogador de basquete na praia paulista de Bertioga. Foram absolvidos por legítima defesa. Em ambos os casos, o segurança e o promotor usaram armas de fogo para decidir brigas de rua que poderiam se limitar a agressões. O segurança estava “com medo” dos jovens desarmados. O promotor estava “com medo” dos jovens mais altos que ele, desarmados, e atirou 12 vezes.

Devo também adquirir uma arma para disparar quando me sentir ameaçada por pessoas desarmadas? Como tenho 1,60 metro, quase todo mundo é mais alto do que eu. Será que estou desatualizada, em descompasso com as leis do país, andando por aí sem revólver num cenário de faroeste?

Sou a favor do desarmamento da sociedade. Posso ser chamada de ingênua. Mas jamais compraria ou permitiria uma arma em casa. Porque arma serve para matar ou morrer. Se tivesse porte de arma devido a meu cargo ou profissão, a responsabilidade teria de ser dobrada antes de tirar a vida de alguém e acabar com a alegria de uma família.



O governador do Rio chamou os PMs de “insanos e débeis entais”.
O júri concluiu que eles cumpriram seu dever
A morte de João Roberto não foi uma fatalidade. Foi um crime grotesco. Sem o argumento batido da legítima defesa. No dia seguinte ao assassinato, o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, disse: “Esses PMs são insanos e débeis mentais”. E continuou: “Uma atrocidade cometida contra inocentes. Os policiais estão presos e responderão do ponto de vista criminal”. O tenente-coronel Loury, comandante do 6º Batalhão, disse que “os PMs reconheceram que houve uma m... injustificável”. O ministro da Justiça, Tarso Genro, chamou de “barbárie”. O ministro Paulo de Tarso Vannuchi, dos Direitos Humanos, afirmou: “Não podemos reagir ao caso do menino com blablablá”. E venceu o blablablá. O cabo William de Paula foi condenado a serviço comunitário por “lesão corporal leve” contra a mãe de João Roberto, ferida por estilhaços de vidro. Os policiais tinham sido indiciados por homicídio doloso qualificado – com a intenção de matar, sem chance de defesa da vítima. A decisão do júri foi que eles agiram “no estrito cumprimento do dever”.

Ninguém acha que o cabo e seu colega, o soldado Elias Gonçalves da Costa, saíram de casa com a intenção de matar um menino. Eles perseguiam um Fiat Stilo preto próximo às favelas da Tijuca. Quando viram o Palio Weekend cinza estacionado, não tiveram dúvida. Eram os bandidos, esperando ali para ser mortos. Um delírio. Era um alvo parado. Estavam tão cegos que nem viram a bolsa com pertences de criança jogada pela janela. A mãe de João Roberto saiu do carro aos gritos. Já era tarde.

Você ou eu poderíamos estar dentro do Palio. Poderia ser o filho do governador ou do ministro. Poderiam ser jovens da favela ou até bandidos. O cabo e o soldado são PMs mal pagos, mal treinados. Vamos atirar, depois a gente descobre quem morreu e monta uma versão. Os policiais inventaram um tiroteio. Um vídeo os desmentiu.

O pai de João Roberto, o taxista Paulo Roberto, gritou após a sentença: “E se minha mulher também tivesse sido morta?”.

A absolvição equivale a uma licença para matar indiscriminadamente. Foi um tapa na cara da sociedade, do governador, do ministro, que esperavam uma punição exemplar. Quem é o réu? O Estado, que joga na rua uma tropa sem preparo técnico e emocional? Ou os policiais, que têm de pagar por seu erro fatal? Alguém precisa assumir a culpa pela morte de João Roberto.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Ana Carolina Oliveira, por Francisco Cembranelli







A mãe de Isabella Nardoni comoveu o país com a força diante da dor



Conheci Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, cerca de dez dias depois da morte da menina. Sem querer, ela foi colocada no centro de uma tragédia singular e de repercussão nacional. Nessa história toda, a única pessoa que sofreu mais que ela foi a própria Isabella. Numa situação dessas, algumas pessoas se isolam completamente. Outras têm repentes de fúria. Mas Ana Carolina encontrou um ponto de equilíbrio e, desde o início, vem se comportando de maneira admirável. Em nenhum momento perdeu a compostura. Apesar de estar mergulhada num sofrimento profundo e de ser muito jovem para suportar tudo isso, ela sempre se comportou de forma decente e procurou respeitar a todos – até àqueles que a criticaram, como o pai do réu Alexandre Nardoni, e aos que não compreenderam a razão de seu comportamento equilibrado ao falar com jornalistas e ir a programas de televisão. Aos poucos, Ana Carolina está tentando reconstruir a própria vida e readaptar-se à rotina sem Isabella. O apoio de sua família, principalmente dos pais e dos irmãos, tem sido fundamental. Apesar da imensa dor e de saber que nada vai compensar a perda trágica da filha, Ana Carolina não se omitiu em nenhum momento. O desejo dela é que a justiça seja feita.

Francisco Cembranelli, promotor de Justiça que trabalha no caso Isabella