
ANA CAROLINA E ISABELLA. TENTEI ACHAR UMA IMAGEM DA MÃE TRISTE. MAS ESTE SORRISO DO PASSADO FALA MAIS A RESPEITO DA DOR QUE ESTÁ SENTINDO AGORA DO QUE MIL LÁGRIMAS. QUEM PODE AVALIAR SEU SENTIMENTO?
O caso mais chocante dos últimos tempos sem dúvida é a morte da menina Isabella, e a prisão do pai e da madrasta como possíveis autores do crime. Mas já me aconteceu, várias vezes, de ouvir o seguinte comentário:
-- Eu só não entendo a reação da mãe da menina, tão fria.
Houve até quem levantasse a suspeita de que ela poderia estar sabendo de alguma coisa, sei lá.
Sabe o que me desgosta cada vez que ouço isso? A mãe de Isabella, Ana Carolina de Oliveira preferiu manter o silêncio sobre o caso, até por conselho judicial. Recusou-se a dar entrevistas. Só se aparece em eventos onde inclusive distribui camisetas com a imagem da pequena Isabella, aceita posar para fotos. Mas não deu o espetáculo do desespero que todos esperavam. Não chorou agarrada em um microfone. Não fez o circuito dos programas de entrevistas se rasgando diante das cameras, mostrando a boneca de Isabella, os vestidinhos, etc etc. Ana Carolina de Oliveira não transformou a dor num circo. É o suficiente para acharem que é fria!
Mas o que está acontecendo!? Estamos todos viciados em mídia? Há quem faça questão de dar detalhes de seus romances para revistas, como se não conseguisse viver sem aparecer. Bem, eis a surpresa! Nem todo mundo faz questão de lavar a roupa suja em público. De bater no peito diante das cameras. De chorar agarrada num microfone, de olho no close. Ana Carolina de Oliveira preferiu ficar em casa, com seus pais. Respeitar sua própria dor. Isso demonstra dignidade. Não tem nada a ver com frieza.
Só quem perdeu um filho tem a noção do tamanho desse sofrimento que aliás, não tem tamanho. É uma perda incompreensível, porque fomos programados para partir primeiro. Perder um filho é um atentado contra a ordem natural das coisas. Ou pelo menos essa é a emoção. Agora, mais terrível él imaginar perder um filho nas mãos do próprio pai, acusado da morte da menina. Imagino essa moça de classe média, com uma filha que ela adorava. Alexandre, o pai da menina ia buscá-la nos fins de semana, e Ana acreditava que Isabella estava segura. Porque não estaria? Houve uma época em que ela amou Alexandre. Beijaram-se. Tiveram momentos de carinho, de emoção. Nasceu Isabella. Como entender o tamanho dessa traição de um homem que foi seu íntimo? Como aceitar a perda? E como ainda por cima ir aos jornais, revistas, televisão, para fazer alarde da própria dor e agradar a sede de tragédia do público?
Quando alguém morre, às vezes a gente demora tempo para realizar a perda internamente. Lembro que quando minha mãe faleceu, de cancer, no hospital, sofri muito. Chorei. E por muito tempo depois, às vezes seu telefone vinha na minha cabeça e eu tinha vontade de ligar, estendia a mão para o aparelho. E só então lembrava que não havia mais para onde ligar.
Talvez Ana Carolina ainda esteja realizando nesse sentido a morte de Isabella. A ficha ainda não caiu inteira.Talvez por isso consiga ir a um evento e agir socialmente. Isso não significa que seja fria. Significa sim, que não sucumbiu ao desejo de fama fácil, a qualquer preço, à tentação de aparecer por conta da tragédia da filha. É uma atitude respeitável. Ana Carolina, parabéns!
Texto de Walcir Carrasco


