sábado, agosto 16, 2008

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Desigual
Nasci num lugar chamado Itaquera. No último dia 4, um garoto de quatro anos, Rhian Henrique dos Santos Cuellar desapareceu por lá. Ele estava na casa da avó. Casa de gente humilde, simples, que mora em barracos e cortiços. São pessoas com as quais eu convivo e conheço há bastante tempo. A vida daquelas pesosas já era difícil e com o desaparecimento da criança o desespero tomou conta.

Na madrugada desta quinta-feira, o corpo de Rhian apareceu abandonado dentro de uma casinha de cachorro. A imprensa noticiou e este foi o assunto do dia no programa do Datena. Provavelmente será o assunto nos cadernos policiais dos jornais de amanhã. O garoto foi sequestrado, torturado, abusado sexualmente e morreu pelas mãos de um adolescente de 16 anos que lhe esmagou a cabeça com uma pedra.

Não há como saber mais nada da vida depois disso. Nesse canto do mundo chamado Itaquera, o amor ainda não chegou e a felicidade nunca plantou.


Desigual


Eu vivo num lugar
Em que as pessoas são felicidade
Sorriem no mundo sem maldade
Das oportunidades que a vida lhes deu

E então nesse lugar
Não há quem não duvide:
Como alguém pode ser triste
Se eu só quero ser feliz?

E aqui neste lugar
Muita gente não tem a chance
De viver sequer um instante
E de poder sentir-se assim

Pois este é o lugar
Onde todos andam de abraços
Dos amigos e gestos ricaços
Sem saber que o bem é a crueldade mais cruel

Foi aqui neste lugar
Que inventaram a ditadura
O Tráfico, a extorsão, a tortura
E mataram o menino Rhian

Este é o lugar
Onde roubam garotinhos
Lhes arrancam os carinhos
E os abandonam semi-nus

Neste lugar
O povo caminha sem futuro e sem memórias
Vendem drogas e não contam histórias
Nem escolhem pra onde o destino vai caminhar

É aqui o lugar
De uma gente que trabalha e é pobre
Não almoçam carne e vivem de vender cobre
Nas mazelas que a vida lhe dá

Daqui deste lugar
Ninguém viu faculdade, caderno, lousa ou giz
Daqui, meu camarada, ninguém conhece Paris
Para eles não tem um triz do prazer que os humilha

O nome deste lugar
Se chama Planeta Terra
Codinome de fome e guerra
...para os pobre não inventaram a paz

É aqui neste lugar
Que não vejo sorriso algum
Que pergunto a qualquer um
Porque é que sofrem tanto?
Porque é que não têm um canto?

Existirá, quem sabe, um dia
Para esta gente meretriz
A chance de ser feliz?